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Postagens

Historema 13

O velhinho ia adorar aquela peça. Eu até já podia ver um sorriso escapando do seu recato meio acaipirado.
Eu havia procurado bastante, mas foi numa hora inesperada que o disco apareceu.
O bar barulhento inaugurado meses antes bem diante de minha porta trouxera ao meu comércio um novo público. A circulação aumentou, estendi o horário em quase todos os dias e foi numa sexta quase meia-noite que um guri calado chegou com quatro discos velhos e aceitou minha primeira oferta. A joia do negócio foi uma bolacha inacreditável de 45 rpm, trilha sonora de Love letters, filme de ainda antes dos bons tempos, com música de Victor Young.
O velhinho ia adorar, sem dúvida. “Love letters”, a canção principal, nunca havia faltado no estoque, várias versões para cada década decorrida, menos ou mais meladas, menos ou mais espremidas ou esticadas, com voz, sem voz, nostálgicas, amodernadas. Mas ele desejava a primitiva e repelia as genéricas.
Logo na segunda depois do almoço ele entrou pela porta e ficou…
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Historema 12

Eu poderia tentar alegar que era apenas um menino. Mas naquele instante, assim que vi Pedro cair na tocaia, mesmo criança entendi que eu tinha agido muito mal.
Também poderia dizer que Maurício, muito maior do que eu, havia me coagido a representar aquele papel. Mas não tinha sido bem assim. Ele me mandou, mas não como quem impõe. Ele me mandou como quem acredita estar prestando um favor, dando a mim, e não aos outros moleques da rua, a oportunidade de participar daquela grande emboscada.
Hoje tenho um filho. É um horror vê-lo com o menor dos ferimentos. Quando meninos, porém, em nossa própria carne um corte é um troféu.
Pedro não saía mais de casa depois da escola. Sabia que Maurício queria pegá-lo, em vingança. Seria desigual. Pedro havia vencido a disputa anterior porque fora artilheiro como Davi, lançando uma bolinha de gude no Sansão. Distância prudente do guerreiro mais forte.
Mas naquela tarde, logo após o almoço, bati no portão de Pedro e o chamei para jogar bolinhas. Seu olh…

Historema 11

Acho que sei por que não me esqueci do gesto que presenciei naquela tarde, uma ação discreta e sem vítimas. Foi marcante o golpe inusitado de uma violência não contra um organismo ou mesmo contra matéria inerte, mas contra o Sentido natural das coisas.
No final da aula de Educação Artística, meus colegas adolescentes estavam profissionalmente entediados. Eu ainda rabiscava uns contornos no papel, convicto de que os conceitos teóricos haviam sido assimilados em minha mente, mas não mimetizados no exercício prático.
Claro que as duas meninas na minha frente tinham se saído muito melhor.
Eu não tinha pressa para terminar e entregar a obra-prima. Aquela classe à tarde era quase extra-curricular. Não existia nada para fazer depois.
Porém mais da metade da sala escapou pela porta com sofreguidão logo ao primeiro toque do sinal. O Fabião, um notório repetente, era uma das exceções. Manteve-se mais tempo arrumando sua mochila, com todo o sossego.
Alguns estudantes, entusiastas de seu ofício,…

Historema 10

No caminho até a quadra poliesportiva no fundo do pátio, percebi que o colégio que me contratou para arbitrar a competição não tinha nenhum negro entre seus alunos.
Posso notar o fato logo, mas não vou protestar no jornal. Não estou no mundo para fazer revolução, por mais que me critiquem. Falta-me consciência de classe? Pessoas de todas as cores praticam ações que me embaraçam como ser humano.
O que me faz lembrar aquele dia aconteceu mais tarde. O jogo começou e as equipes eram equilibradas. Defendiam as turmas de estudantes. Era a partida entre, digamos, a sala 11 contra a sala 16 — grupos formados dois meses antes, em parte por sorteio, numa papeleta pautada da secretaria, mas que lutavam encarniçados como se fossem religiões milenares.
O adolescente que brincava de técnico de um dos times cumprimentou-me com educação e talvez até com dentes claros, antes do início. Ao longo da partida gritou muito com seus amigos e me fez perguntas. Irritou-se apenas de leve com algumas de minha…

Historema 9

Eu quase não percebi aquele personagem diminuto. Era apenas um homem qualquer, sentado ao lado de uma moça no banco de espera do restaurante. Conversavam distraidamente quando entrei, faminto, procurando com urgência a anfitriã.

Mas ela não estava no balcão do vestíbulo. Conheço bem a casa. Passei ao salão das mesas e ela me viu, voltando de acomodar três jovens lá no fundo:

— Só um lugar hoje — expliquei.

Aguardei de pé, ao lado do homem que falava continuamente com sua companhia. Éramos apenas nós três. Cinco minutos se passaram sem aparecer mais ninguém.

A anfitriã enfim me chamou. Eu me movi para segui-la, mas o homem se interpôs abruptamente:

— Nós chegamos antes.

Percebi a consternação no olhar da funcionária, que deu uma espiada na sua ficha e perguntou o nome dele.

Ele não havia se inscrito.

— Mas o senhor sabe que nós chegamos antes — ele argumentou.

Quase abri mão do privilégio, mas o estômago reforçou o seu sinal e eu respondi ao homem apenas com um gesto, apontando para a…

Historema 8

Seria um melindre insensato temer suas possíveis reações. Eu estava decidido.
Com o sábado livre, cheguei ao velório cedo, antes do caixão. A funcionária apareceu com uma papeleta na mão, estudou o mural de entrada e fixou, diante do número 4, o nome do defunto que eu aguardava.
Pouco depois ele chegou. O ataúde era carregado por servidores esbaforidos. Atrás deles surgiu o Fabiano, um dos filhos, meu amigo de infância.
— Lamento — me adiantei.
Ele agradeceu por minha presença e até sorriu. Perguntei sobre o menininho, seu irmão.
— Está vindo no primeiro voo.
O menininho ainda arrastava carro de bombeiro e juntava tralhas na época em que o Fabiano e eu estudávamos para o vestibular, debaixo do ventilador catracante. Agora bacharelado, laureado e desempregado, eu o vi recentemente em talk-show na TV, desfiando suas conquistas digitais.
Estava rico.
As pessoas iam chegando, consegui me encaixar em duas ou três conversas. Peguei bolinho, café, visitei o morto em exposição uma vez, depoi…

Historema 7

Algumas meninas arrancam os saltos para pisar já no chão fofo do elevador. Eu prefiro suportar a dor mais dois minutos, manter o porte e desabar somente no sofá da sala.

Naquela noite, mesmo com essa pressa, segurei a porta para um homem do quinto, em quem nunca tinha prestado atenção.

Ele não me agradeceu, ou despercebi. Encarou depressa, mas perceptivelmente, o decote que eu não havia tido tempo de trocar na saída do evento.

Cada um apertou um botão. Foi então que ele disse:

— Quanto é o programa, querida?

Não sei de que modo externei o sufoco em meu coração ao ouvir essas palavras. Posso ter gemido, ou suspirado. Ele não me amedrontava. A pergunta teve até leveza, descuido. Não consegui dizer nada, ou não quis. Farejei por bafo de álcool, mas o resultado foi inconclusivo. Saí no meu andar sem lhe voltar o rosto.

Já recebi propostas em eventos, mas sempre soaram diferente para mim. A pessoa é comedida, muitas vezes não avançando além da sugestão indireta. Isso me permite negar com …