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Historema 8

Seria um melindre insensato temer suas possíveis reações. Eu estava decidido.

Com o sábado livre, cheguei ao velório cedo, antes do caixão. A funcionária apareceu com uma papeleta na mão, estudou o mural de entrada e fixou, diante do número 4, o nome do defunto que eu aguardava.

Pouco depois ele chegou. O ataúde era carregado por servidores esbaforidos. Atrás deles surgiu o Fabiano, um dos filhos, meu amigo de infância.

— Lamento — me adiantei.

Ele agradeceu por minha presença e até sorriu. Perguntei sobre o menininho, seu irmão.

— Está vindo no primeiro voo.

O menininho ainda arrastava carro de bombeiro e juntava tralhas na época em que o Fabiano e eu estudávamos para o vestibular, debaixo do ventilador catracante. Agora bacharelado, laureado e desempregado, eu o vi recentemente em talk-show na TV, desfiando suas conquistas digitais.

Estava rico.

As pessoas iam chegando, consegui me encaixar em duas ou três conversas. Peguei bolinho, café, visitei o morto em exposição uma vez, depois de novo, e estava encostado num poste da calçada quando o menininho, agora com músculos e a face escura por pelos, bateu a porta do táxi e caminhou com energia para a entrada do velório.

Não me aproximei naquele momento. Ele olhou para o quadro de avisos antes de entrar. Detectei sua consternação quando verificou na listagem o registro inapelável do nome do pai.

Minutos depois ele saiu depressa lá de dentro, óculos negros no rosto. Uma prima se aproximou para abraçá-lo, mas ele fez que não a viu e, para nossa surpresa, virou a esquina escapando por uma transversal como se não tivesse nenhuma relação com aquele ajuntamento de cidadãos pesarosos.

Cismei por quase uma hora na mesma posição, chegando a pensar que o menino não voltaria mais. Porém ele ressurgiu do mesmo ponto em que havia desaparecido e em seguida o féretro partiu.

Apreciei o trabalho do coveiro com certa gravidade, como quem olha um aquário e não pensa em mais nada. A urna desceu, preencheu uma cavidade do jazigo, o homem cimentou os tijolos e era isso.

Avistei depois o menino sentado profanamente numa campa mais adiante. Não havia ninguém por perto e eu me aproximei devagar. Minha mãe estava doente e era preciso ser prático. Sentei-me ao lado dele e lhe passei meu cartão, pedindo que me indicasse para um trabalho.

Ele levantou a armação sobre o nariz por somente um segundo para ler melhor, e eu notei as mais fundas olheiras vermelhas que já havia visto. Em seguida ele balançou a cabeça e se lembrou de mim. Falou detalhadamente as providências que tomaria a meu favor. Enumerou certas qualificações necessárias e até me fez perguntas. Guardou meu cartão no bolso e se despediu com um aperto de mão. Saiu do cemitério abraçado à mãe.

Não sei se ele se esqueceu ou se cultivou por um tempo algum aborrecimento comigo. Mas, como dizem, antes tarde do que nunca. Um mês depois eu estava empregado.



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