quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Historema 10

No caminho até a quadra poliesportiva no fundo do pátio, percebi que o colégio que me contratou para arbitrar a competição não tinha nenhum negro entre seus alunos.

Posso notar o fato logo, mas não vou protestar no jornal. Não estou no mundo para fazer revolução, por mais que me critiquem. Falta-me consciência de classe? Pessoas de todas as cores praticam ações que me embaraçam como ser humano.

O que me faz lembrar aquele dia aconteceu mais tarde. O jogo começou e as equipes eram equilibradas. Defendiam as turmas de estudantes. Era a partida entre, digamos, a sala 11 contra a sala 16 — grupos formados dois meses antes, em parte por sorteio, numa papeleta pautada da secretaria, mas que lutavam encarniçados como se fossem religiões milenares.

O adolescente que brincava de técnico de um dos times cumprimentou-me com educação e talvez até com dentes claros, antes do início. Ao longo da partida gritou muito com seus amigos e me fez perguntas. Irritou-se apenas de leve com algumas de minhas marcações.

Mas perto do final, em lance crítico, a bola foi cortada bem diante de mim e quicou fora da quadra. O rapaz comemorou o ponto da vitória, mas eu decidi que ela havia resvalado na mão de um de seus colegas.

A decisão não o agradou. Ele pôs as mãos na cabeça, chocado. Mas não ficou paralisado por muito tempo. A partida continuou e o time adversário foi campeão em duas jogadas rápidas.

Quando percebeu o que tinha acontecido, ele partiu com tanta fúria para cima de mim que algumas pessoas precisaram segurá-lo. Mais que isso, elas o arrastaram para longe, por precaução. Impedido de se manifestar fisicamente, deixou jorrar a palavra:

— Macaco!

Talvez eu tenha errado, e qualquer celular de moleque pode me condenar em imagens como nas mesas redondas de gente grande. Mas quem não erra?

Por si mesma a palavra Macaco não tem como ser ofensiva. O que há de errado com os primos da humanidade inteira? Seria um elogio para, digamos, um macacófilo. É claro que a ofensa está toda na intenção inicial de ofender. Ele podia me chamar de automóvel, violão, crediário ou aspirina. A ofensa já está antes da palavra.

Dois alunos vieram me pedir desculpas mais tarde. O diretor do colégio, avisado da cena, também.

Eu devia jogar dardos no rosto pintado do indivíduo? O mundo não é estático. Hoje, sim, existe um vilão naquela criança. Mas pobre menino. Terminará de receber sua educação, quando entenderá que somos todos iguais. O tempo vai passar e ele estará condenado a relembrar aquela covardia. Se tiver uma religião, ansiará um dia por confessá-la ao padre. Não tendo religião, mas algum senso prático, desfiará o problema no divã. Faltando-lhe qualquer ajuda, o que poderá fazer? Recordar. Sofrerá sem purgação enquanto aquele dia negro persistir em sua memória. 

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