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Mostrando postagens de 2016

Historema 11

Acho que sei por que não me esqueci do gesto que presenciei naquela tarde, uma ação discreta e sem vítimas. Foi marcante o golpe inusitado de uma violência não contra um organismo ou mesmo contra matéria inerte, mas contra o Sentido natural das coisas.
No final da aula de Educação Artística, meus colegas adolescentes estavam profissionalmente entediados. Eu ainda rabiscava uns contornos no papel, convicto de que os conceitos teóricos haviam sido assimilados em minha mente, mas não mimetizados no exercício prático.
Claro que as duas meninas na minha frente tinham se saído muito melhor.
Eu não tinha pressa para terminar e entregar a obra-prima. Aquela classe à tarde era quase extra-curricular. Não existia nada para fazer depois.
Porém mais da metade da sala escapou pela porta com sofreguidão logo ao primeiro toque do sinal. O Fabião, um notório repetente, era uma das exceções. Manteve-se mais tempo arrumando sua mochila, com todo o sossego.
Alguns estudantes, entusiastas de seu ofício,…

Historema 10

No caminho até a quadra poliesportiva no fundo do pátio, percebi que o colégio que me contratou para arbitrar a competição não tinha nenhum negro entre seus alunos.
Posso notar o fato logo, mas não vou protestar no jornal. Não estou no mundo para fazer revolução, por mais que me critiquem. Falta-me consciência de classe? Pessoas de todas as cores praticam ações que me embaraçam como ser humano.
O que me faz lembrar aquele dia aconteceu mais tarde. O jogo começou e as equipes eram equilibradas. Defendiam as turmas de estudantes. Era a partida entre, digamos, a sala 11 contra a sala 16 — grupos formados dois meses antes, em parte por sorteio, numa papeleta pautada da secretaria, mas que lutavam encarniçados como se fossem religiões milenares.
O adolescente que brincava de técnico de um dos times cumprimentou-me com educação e talvez até com dentes claros, antes do início. Ao longo da partida gritou muito com seus amigos e me fez perguntas. Irritou-se apenas de leve com algumas de minha…

Historema 9

Eu quase não percebi aquele personagem diminuto. Era apenas um homem qualquer, sentado ao lado de uma moça no banco de espera do restaurante. Conversavam distraidamente quando entrei, faminto, procurando com urgência a anfitriã.

Mas ela não estava no balcão do vestíbulo. Conheço bem a casa. Passei ao salão das mesas e ela me viu, voltando de acomodar três jovens lá no fundo:

— Só um lugar hoje — expliquei.

Aguardei de pé, ao lado do homem que falava continuamente com sua companhia. Éramos apenas nós três. Cinco minutos se passaram sem aparecer mais ninguém.

A anfitriã enfim me chamou. Eu me movi para segui-la, mas o homem se interpôs abruptamente:

— Nós chegamos antes.

Percebi a consternação no olhar da funcionária, que deu uma espiada na sua ficha e perguntou o nome dele.

Ele não havia se inscrito.

— Mas o senhor sabe que nós chegamos antes — ele argumentou.

Quase abri mão do privilégio, mas o estômago reforçou o seu sinal e eu respondi ao homem apenas com um gesto, apontando para a…

Historema 8

Seria um melindre insensato temer suas possíveis reações. Eu estava decidido.
Com o sábado livre, cheguei ao velório cedo, antes do caixão. A funcionária apareceu com uma papeleta na mão, estudou o mural de entrada e fixou, diante do número 4, o nome do defunto que eu aguardava.
Pouco depois ele chegou. O ataúde era carregado por servidores esbaforidos. Atrás deles surgiu o Fabiano, um dos filhos, meu amigo de infância.
— Lamento — me adiantei.
Ele agradeceu por minha presença e até sorriu. Perguntei sobre o menininho, seu irmão.
— Está vindo no primeiro voo.
O menininho ainda arrastava carro de bombeiro e juntava tralhas na época em que o Fabiano e eu estudávamos para o vestibular, debaixo do ventilador catracante. Agora bacharelado, laureado e desempregado, eu o vi recentemente em talk-show na TV, desfiando suas conquistas digitais.
Estava rico.
As pessoas iam chegando, consegui me encaixar em duas ou três conversas. Peguei bolinho, café, visitei o morto em exposição uma vez, depoi…

Historema 7

Algumas meninas arrancam os saltos para pisar já no chão fofo do elevador. Eu prefiro suportar a dor mais dois minutos, manter o porte e desabar somente no sofá da sala.

Naquela noite, mesmo com essa pressa, segurei a porta para um homem do quinto, em quem nunca tinha prestado atenção.

Ele não me agradeceu, ou despercebi. Encarou depressa, mas perceptivelmente, o decote que eu não havia tido tempo de trocar na saída do evento.

Cada um apertou um botão. Foi então que ele disse:

— Quanto é o programa, querida?

Não sei de que modo externei o sufoco em meu coração ao ouvir essas palavras. Posso ter gemido, ou suspirado. Ele não me amedrontava. A pergunta teve até leveza, descuido. Não consegui dizer nada, ou não quis. Farejei por bafo de álcool, mas o resultado foi inconclusivo. Saí no meu andar sem lhe voltar o rosto.

Já recebi propostas em eventos, mas sempre soaram diferente para mim. A pessoa é comedida, muitas vezes não avançando além da sugestão indireta. Isso me permite negar com …

Historema 6

“Leito de morte” é uma expressão que eu sempre tinha considerado romântica e exagerada até que visitei meu amigo Nelson numa tarde inapropriada em que havia enfermeiros e parentes circulando com agitação por toda a casa.
O pai dele tinha piorado de alguma doença cujo nome sou incapaz de recordar, mas que em princípio não devia ser letal. Vinham de vozes — que claramente haviam tentado se controlar — manifestações de revolta contra médicos precedentes:
— Deixaram ele ficar assim.
Estávamos de férias e eu ia toda tarde até o Nelson após o almoço para trocarmos tiros no videogame ao som de rock pesado. Naquele dia passei direto pela porta destrancada e ninguém se lembrou de me mandar embora.
Entendi o que estava acontecendo e fui espiar meu amigo sofrer.
Entrei no quarto do seu Expedito, que estava inconsciente enquanto sua pressão era aferida por uma mulher desconhecida. A única outra pessoa no quarto naquele instante era o Nelson, que olhava para o pai com serenidade, de pé na passade…

Historema 5

*
— O que essa careta está fazendo aqui? Nem cerveja ela bebe.
Escutei essa frase a alguma distância. A própria Raquel não percebeu. As duas meninas que ouviram o Válter ficaram quietas. Só a Manoela concordou com a cabeça, indiferente.
O calor de novembro não rompera de todo o nosso jeito matuto, e a piscina estava vazia naquele momento. Uns três ou quatro colegas tinham mergulhado um pouco antes, mas já se secavam ao sol, exibindo o tórax. Eu havia me empanturrado de carne e fiquei com medo de ter uma congestão dentro da água.
A churrascada do pessoal da escola ia durar até de noite.
Eu também não bebia cerveja. Mas eu é que tinha encomendado os barris e feito o açougue, então ninguém me hostilizava frontalmente nem fazia comentários dissimulados. Eu tomava refrigerante com desenvoltura e meu próprio senso de virilidade.
Sentada perto da mesa, notavelmente afastada do convívio, a Raquel mantinha o sorriso ameno de quem, de algum modo, se considerava suficientemente integrada e sati…

Historema 4

Ao começar a falar com Henrique, percebi algo estranho e assustador.
Ando muito pela cidade e gosto quando encontro um amigo. Tenho centenas de amigos, talvez milhares: faz tempo que impugnei o status de “conhecido”. Aprecio a beleza de cada alma e amo pessoas cujo nome ignoro. Quem quer que cruze meu caminho pela calçada, eu detenho para ofertar sorrisos e trocar recordações.
Alguns de início fingem não me ver. Chego a notar os passos se acelerarem e os olhos se arregalarem voltados para o horizonte. Nunca levo a mal. Existe a pressa, a timidez, o receio de não lembrarem meu nome.
Mas seguro todos, sempre. Para os tímidos, sorrio como uma declaração de sua grande importância. Condescendo com os apressados, apertando suas mãos e me despedindo com desculpas por minha própria urgência. E liberto do embaraço os esquecidos, fingindo que minha memória é ainda pior:
— Qual seu nome, mesmo?
Às vezes a maldade do acaso me nega tais encontros por períodos muito longos.  Por isso os crio eu mesmo, c…

Historema 3

Uma mulher de quase cinquenta anos nascendo de novo. Foi diante de toda a classe, mas somente eu percebi.
Era a última aula da manhã. Dona Olinda entrou na sala e não fez nenhum gesto para tolher as conversas fomentadas pelo meio-dia quente. O Vinícius ainda estava de pé e só se abancou depressa na carteira quando eu o adverti com um cutucão.
As três alunas caxias, sentadas sérias mais à frente, começaram a copiar os rabiscos que Dona Olinda arrastava calada ao longo da lousa verde. O Marcelo deu uma risada alta lá no fundo, mas ninguém prestou a atenção. Quase todos falavam.
Tomei algumas notas enquanto escutava a Edilene, pertinho de meu ouvido, declarar sua contrariedade sobre algum evento que havia presenciado durante o recreio. Não compreendi direito, ou não me recordo. Tínhamos quinze anos.
A professora voltou-se para nós e começou a explicação com uma voz mecânica, mas as primeiras frases foram muito diretas e eu balancei o pescoço escrevendo no caderno o que pensei ter entend…

Historema 2

Eu já estava apavorado bem cedo pela manhã. Temia ser forçado a cursar o Tiro de Guerra.
Cheguei ao quartel da cidade sem atraso. Desci do ônibus com cinco minutos de folga e apertei o passo para entrar a tempo.
Ter começado a faculdade provavelmente me anistiaria do serviço militar. A dispensa médica eu não tinha conseguido. Havia insistido com o avaliador alegando que meu pé era chato e que eu passara por uma intervenção no cóccix. Ele me sorriu com indulgência, mas se ateve à disciplina e carimbou minha ficha como apto.
O portão do quartel estava aberto. Sua guarda era feita por um menino como eu, só um ano mais velho, decerto cumprindo seu fim de serviço. Eu não sabia se lhe devia continência, aceno ou distância. Na dúvida, apenas o olhei de leve arremedando respeito, mas seu olhar rígido não cruzou com o meu.
Depois de algumas passadas já dentro do pátio, porém, sua voz me atingiu pelas costas:
— Está atrasado! Começou às oito! Anda!
Olhei para trás e reconheci que aquela descom…

Historema 1

Pensaram depois que o rapaz tinha estado na algazarra com os colegas. Não é verdade. Eu vi como aconteceu.
A pousada de três pavimentos havia sido um seminário, erguido séculos antes com paredes espessas e salas que ecoavam qualquer suspiro. O turismo moderno cercou o terreno e expulsou a fé do prédio. Nossos eclesiásticos foram ser formados em outro lugar, ou então desistiram.
Os aposentos destinados aos universitários eram daqueles quartões enormes de vinte camas. Como eu estava sozinho, num retiro mental (e não espiritual), obtive um cômodo que, em minhas especulações líricas, pode ter sido uma cela de expiação para padres penitentes — senão o armário de vassouras.
Parece que se hospedariam por dois dias. Pelo tempo que ficassem, não me incomodariam. Eu não fugia das pessoas. Estava experimentando o distanciamento dos hábitos que giram em falso na rotina da civilização.
O que há de errado numa confraternização de jovens? É certo que no meu tempo os costumes — os costumes explícito…