sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Historema 3

Uma mulher de quase cinquenta anos nascendo de novo. Foi diante de toda a classe, mas somente eu percebi.

Era a última aula da manhã. Dona Olinda entrou na sala e não fez nenhum gesto para tolher as conversas fomentadas pelo meio-dia quente. O Vinícius ainda estava de pé e só se abancou depressa na carteira quando eu o adverti com um cutucão.

As três alunas caxias, sentadas sérias mais à frente, começaram a copiar os rabiscos que Dona Olinda arrastava calada ao longo da lousa verde. O Marcelo deu uma risada alta lá no fundo, mas ninguém prestou a atenção. Quase todos falavam.

Tomei algumas notas enquanto escutava a Edilene, pertinho de meu ouvido, declarar sua contrariedade sobre algum evento que havia presenciado durante o recreio. Não compreendi direito, ou não me recordo. Tínhamos quinze anos.

A professora voltou-se para nós e começou a explicação com uma voz mecânica, mas as primeiras frases foram muito diretas e eu balancei o pescoço escrevendo no caderno o que pensei ter entendido. O burburinho continuava. Meus colegas não estavam interessados na aula de geografia.

Foi então que Dona Olinda renasceu.

Primeiro sua voz se abrandou, deixando os ensinamentos soarem cada vez mais obscuros, distantes. A Rafaela lá da frente largou a caneta, franziu a sobrancelha e teve um tique rápido voltado à turma. Pensei que se zangaria com o Eduardo, falante demais a seu lado, mas ele era muito bonito.

A gente podia pensar que a Dona Olinda pisaria firme contra todos os adversários, ou então que a desordem se atenuasse espontaneamente diante da mulher que tentava ensinar. Mas essa civilidade não ocorreu.

Ela falava já tão baixo que a banda das atentas desistiu. As meninas começaram a conversar entre elas, com sussurros que eu não podia captar.

Dona Olinda falava baixo, mas não falava mal. Não falava pouco nem falava com inocência. Ela passou a sorrir encarando a classe, e seus lábios se mexiam mastigando as palavras — que depois pararam de soar completamente.

Ninguém ouvia seu emudecimento.

O giz, por sua vez invisível aos alunos, correu pela lousa criando o desenho de países estranhos. A costa do Brasil virou uma península imaginária. Caravelas enfrentavam ondas gigantescas, monstros saíam do oceano, peixes imensos de olhos esbugalhados eram rasgados pelo tridente de Netuno em sua ira.

No final, sua boca nem se movia mais. Somente os braços balançavam. Seus desenhos rápidos contavam outra história do mundo, correta e absurda, e o barulho de fundo que a sala ainda fazia era como a estática do Big Bang, aquela radiação cósmica que não traz nenhum significado e apenas revela como surgiram trilhões de estrelas.


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